Falar sobre doação de órgãos ainda em vida pode ajudar famílias a enfrentar um momento de despedida e contribuir para que outras pessoas tenham a oportunidade de continuar suas histórias.
A discussão ganha destaque durante o Setembro Verde, campanha dedicada à conscientização sobre a importância da doação de órgãos e tecidos.
Em Goiás, dados da Central Estadual de Transplantes mostram que 67,3% das famílias não autorizam a doação de órgãos após a morte de um parente.
No Hospital de Urgências de Goiás – Dr. Valdemiro Cruz (HUGO), o trabalho busca ampliar a captação por meio de protocolos assistenciais e do acolhimento das famílias.
Administrado pelo Einstein, o HUGO foi o hospital estadual que mais captou órgãos para transplantes em Goiás entre janeiro e agosto de 2026.
Nesse período, a unidade realizou 25 captações de múltiplos órgãos, com média de três procedimentos por mês. As doações beneficiaram mais de 90 pessoas.
Segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes de 2025, a recusa familiar no HUGO foi de 55%. O índice ficou abaixo das médias registradas em Goiás e no Brasil no período.
HUGO fortalece acolhimento às famílias
A ampliação dos resultados está relacionada ao fortalecimento dos fluxos assistenciais e à atuação integrada da Equipe Intra-Hospitalar para Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (E-Dot) com outras áreas do hospital.
A equipe atua desde a identificação de um potencial doador até a investigação e confirmação da morte encefálica e a abordagem dos familiares.
Médicos, enfermeiros, técnicos, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais recebem preparação para participar do processo.
Em entrevista à Rádio Bandeirantes Goiânia, a biomédica e coordenadora da E-Dot do HUGO, Keliene Oliveira, explicou que o trabalho começou em junho de 2024, após o Einstein assumir a gestão da unidade.
Segundo ela, o acolhimento começa antes mesmo da confirmação da morte encefálica.
“O familiar é envolvido no cuidado do paciente desde que ele chega à unidade. Ele participa de todos os processos e de toda a comunicação.”
Keliene explicou que a equipe mantém a família informada durante a investigação de uma possível morte encefálica.
“É um processo complexo e doloroso. A todo momento, atualizamos a família e explicamos cada procedimento”, afirmou.
De acordo com a coordenadora, a estratégia ajuda a criar um vínculo entre profissionais e familiares antes da comunicação da morte encefálica.
“Isso torna o vínculo mais próximo quando chega o momento de dar essa notícia”, destacou.

Doação exige preparo e acolhimento
Cada captação envolve uma decisão tomada por familiares durante um período de profunda dor. Por isso, o hospital considera o acolhimento uma etapa fundamental do processo.
A equipe multiprofissional acompanha os familiares, esclarece dúvidas e explica as etapas da doação.
Para a diretora médica do HUGO, Fabiana Rolla, a experiência do Einstein na área de transplantes também contribui para a qualificação dos processos.
“A troca de conhecimentos contribui para aprimorar processos e equipes. Na captação de órgãos, técnica, agilidade e cuidado humanizado precisam caminhar juntos”, afirmou.
A biomédica Keliene Oliveira também destaca a importância da comunicação durante todo o atendimento.
Segundo ela, a família acompanha a evolução do paciente e recebe informações sobre os procedimentos realizados. A estratégia busca garantir mais segurança no momento em que a equipe aborda a possibilidade de doação.
Família precisa conhecer desejo de doar
No Brasil, a doação de órgãos após a morte depende da autorização da família.
Por isso, o Setembro Verde também reforça a importância de conversar sobre o tema dentro de casa.
Informar aos familiares a intenção de ser doador pode facilitar a decisão em um momento de perda. O registro da vontade, por si só, não substitui a autorização familiar.

HUGO homenageia doadores
O cuidado com as famílias também aparece em ações realizadas após a autorização da doação.
No HUGO, a saída de um doador é marcada pelo corredor de aplausos. Colaboradores do hospital participam da homenagem como forma de reconhecer a pessoa e agradecer à família pelo gesto.
Outro símbolo é o Memorial Árvore da Vida, instalado na recepção social da unidade e doado pelo artista plástico goiano Siron Franco.
Periodicamente, familiares participam de uma cerimônia no local. Eles colocam uma placa com as iniciais do doador no monumento.
A iniciativa busca preservar a memória das pessoas que partiram e simbolizar a esperança proporcionada pela doação de órgãos.
Sobre o HUGO
Inaugurado em 1991, o Hospital de Urgências de Goiânia – Dr. Valdemiro Cruz é o segundo maior hospital de urgência e emergência de Goiás.
A unidade também atua nas áreas de ensino, pesquisa e extensão universitária. Entre os programas está o de microcirurgia, com procedimentos de reconstrução e reimplante.
O hospital também é referência no atendimento de pacientes com acidente vascular cerebral (AVC). O projeto Angels foi implantado na unidade em 2022.
Segundo informações do hospital, o protocolo contribuiu para reduzir em mais de 86% as sequelas e em quase 90% os óbitos entre pacientes com AVC isquêmico.
O HUGO possui 387 leitos de internação e dez salas no centro cirúrgico. Sob gestão do Einstein, a unidade mantém atendimentos ambulatoriais e hospitalares regulados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).



