Professora da UEG, Ceiça Ferreira é finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico com livro sobre cinema negro 

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A professora Ceiça Ferreira, do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás (UEG), é uma das organizadoras da coletânea Cinema Negro no Feminino: afeto e pertencimento além das telas, finalista da terceira edição do Prêmio Jabuti Acadêmico 2026, na categoria Artes.

Publicada em 2025 pela Nau Editora, a obra foi organizada por Ceiça em parceria com a cineasta Edileuza Penha de Souza. A coletânea reúne artigos, ensaios e entrevistas de pesquisadoras, cineastas, curadoras e profissionais do audiovisual para discutir trajetórias, processos criativos e representações de mulheres negras no cinema brasileiro.

A pesquisa que deu origem ao livro foi desenvolvida ao longo de cinco anos. Para Ceiça, a indicação representa o reconhecimento de um trabalho coletivo desenvolvido a partir do Centro-Oeste e que reúne pesquisadores e profissionais de diferentes regiões do país.

“É muito gratificante, porque foram mais de 2 mil obras inscritas e esse livro é uma coletânea sobre cinema negro no feminino que reúne autores e autoras, em sua grande maioria, principalmente mulheres negras, de várias partes do Brasil”, afirma.

Segundo a professora, o reconhecimento também é significativo por se tratar de uma pesquisa desenvolvida fora dos principais centros acadêmicos e culturais do país. “Estar aqui no Centro-Oeste, fazer uma pesquisa sobre cinema a partir de uma perspectiva interseccional, pensando gênero e raça, tem todos os desafios que a gente sabe de fazer pesquisa. Então, é muito importante. É um reconhecimento, sem dúvida, do trabalho que a gente tem desenvolvido”, diz.

Visibilidade do cinema negro

A coletânea aborda a atuação de mulheres negras em diferentes áreas do audiovisual, incluindo produção cinematográfica, crítica, curadoria e espaços de exibição.

Ceiça destaca o aumento da visibilidade dessas produções nas últimas décadas. Segundo ela, mulheres negras produzem cinema há décadas, mas parte dessa produção passou a conquistar maior espaço em festivais e circuitos de exibição principalmente a partir dos anos 2000.

“Esse cinema negro feminino é absolutamente inovador, do ponto de vista formal, da forma, da questão da representação. Então, a gente vai ter uma diversidade de produções, de formatos, de linguagens”, afirma.

A professora também relata que a pesquisa sobre cinema negro enfrentou resistência no meio acadêmico. “Muitas vezes, eu fui questionada durante o doutorado, diziam que era só militância, e é muito gratificante ver essas produções ganhando cada vez mais destaque. Óbvio que as dificuldades permanecem, mas tem avançado, sem dúvida”, relata.

Cinema como espaço de afeto

Um dos eixos da pesquisa é a relação entre experiências, territórios, memórias e identidades na construção das narrativas produzidas por mulheres negras.

Para Ceiça, essas produções ampliam a representação da população negra no cinema. A iniciativa também ajuda a evitar que personagens sejam retratados apenas a partir de histórias de sofrimento.

“Esses cinemas negros no feminino são um espaço de escuta, de pensar como se leva para a tela do cinema essas histórias, essas narrativas que não são apenas, e não devem ser apenas, histórias de dor”, explica.

A pesquisadora também chama atenção para a construção das imagens e dos personagens. “Não é só um filme, é toda uma construção que traz um repertório, traz um imaginário sobre pessoas negras”, afirma.

Cineclubes ampliam acesso

Além da pesquisa acadêmica, Ceiça atua na formação de público por meio do Cineclube Maria Grampinho, criado por ela em 2022. A iniciativa promove sessões e debates sobre cinema, com atenção especial à produção negra.

Para a professora, os cineclubes contribuem para democratizar o acesso às produções e criar espaços de discussão sobre os filmes.

“Ter esses espaços independentes é fundamental porque a gente pode ter mais liberdade na curadoria para selecionar esses filmes, exibir os filmes e depois discutir. Porque é uma questão formativa mesmo”, afirma.

Ela também aponta o custo das salas comerciais como uma das barreiras ao acesso ao cinema em Goiânia. “O cineclube é esse espaço também de lazer. A gente deveria ter mais espaços para possibilitar o acesso a esses filmes que, às vezes, não vão para o cinema”, diz.

Segundo Ceiça, muitos filmes de realizadores negros conseguem circular em festivais, mas enfrentam dificuldades para permanecer no circuito comercial. Nesse cenário, os cineclubes ajudam a aproximar essas produções do público.

Coletânea amplia acesso

A obra também busca democratizar o acesso ao conhecimento produzido pela pesquisa. Mais de 250 exemplares foram distribuídos gratuitamente a jornalistas, cineastas, professores, pesquisadores, artistas, agentes culturais e instituições de diferentes regiões do país.

O livro chegou ao público em outubro de 2025, durante o encontro da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine), em Belém. Depois, a obra circulou por eventos acadêmicos e dedicados ao cinema e às artes.

A coletânea também ganhou uma versão em podcast, produzida em parceria com o Núcleo Audiovisual de Produção de Foleys (NAUFO), da UEG, responsável pela audiodescrição dos textos.

Para Ceiça, iniciativas como essa ajudam a aproximar a produção acadêmica de públicos externos à universidade e contribuem para ampliar a presença de mulheres negras no audiovisual brasileiro.

Prêmio Jabuti Acadêmico

Em sua terceira edição, o Prêmio Jabuti Acadêmico recebeu mais de 2 mil inscrições e selecionou 135 obras finalistas distribuídas em 27 categorias.

A cerimônia de premiação será realizada nesta terça-feira (11), no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, com transmissão pelo canal da Câmara Brasileira do Livro no YouTube.

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