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sexta-feira, 12, agosto 2022
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Como as SAFs podem mudar a relação do torcedor com os clubes brasileiros

Especialistas apontam como o estilo de gestão de negócios dos investidores no mercado brasileiro podem impactar na vida dos torcedores

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ESPECIAL – SAFs

Uma nova era se iniciou no futebol brasileiro e, ao que tudo indica, ela veio para ficar. As já famosas SAFs, sociedades anônimas do futebol, apareceram como a salvação de clubes que viviam situações financeiras e esportivas cada vez mais decadentes e vêm mexendo com o imaginário do torcedor brasileiro. Os primeiros exemplos estão na mesa: o Cruzeiro com Ronaldo, o Botafogo com John Textor e agora o Vasco, que está em processo de formação de uma sociedade anônima com um grupo de investidores, a 777 partners.

Mas, o que os torcedores dos clubes que se tornarem SAF devem esperar, além dos tão sonhados aportes financeiros? Assim como em uma empresa regular, o sócio majoritário tem por direito comandar as ações e procurar novos rumos para o seu investimento, caso ache necessário. Sendo assim, para o especialista em direito desportivo empresarial, Eduardo Carlezzo, é necessário que haja um entendimento claro disso por parte das torcidas:

“Cada investidor tem um perfil de atuação. Sendo esse investidor majoritário, está legitimado a agir como bem entender para implementar a sua gestão. No caso do Cruzeiro, o Ronaldo chega com o intuito de deixar claro uma gestão focada inicialmente em corte de gastos. No Botafogo, o John Textor chega com discurso de aumentar o investimento para fazer o clube voltar a ser protagonista. Cada um deles está liderando de acordo com seu histórico profissional e com as necessidades mais urgentes de cada clube”, analisa Carlezzo.

Mas, nem sempre essas tomadas de decisões serão populares ou levarão em consideração a preferência do torcedor. No Cruzeiro SAF, por exemplo, Ronaldo foi da alegria do anúncio de sua chegada como investidor à sua primeira grande crise em poucos dias. Ao não acertar a permanência do ídolo do torcedor, o goleiro Fábio, o seu projeto à frente do clube sofreu um duro golpe na confiança om o torcedor. Mesmo com a declaração do Fenômeno explicando que a atitude se tratava meramente de uma questão administrativa para comportar a nova política econômica de sua gestão, a desconfiança abalou o clima entre gestor e torcedor.

Outra “crise” nessa relação que a torcida celeste tem que lidar é o desvio de rota que precisou ser feito nas negociações para tentar deixar o negócio ainda de pé. Mais conhecedor da atual realidade do Cruzeiro e, consequentemente, mais cuidadoso, Fenômeno e sua equipe propuseram ao conselho deliberativo da Raposa reconsiderações no acordo alinhavado antes do início do processo de auditoria.

Os pedidos não foram muito bem aceitos por grande parte do conselho. Através de uma nota oficial, a mesa rotulou as novas solicitações como “lesivas e desproporcionais”. A preocupação nos bastidores do clube gira em torno de um acordo que possa ser danoso ao Cruzeiro e benéfica a Ronaldo e uma resolução entre as partes não parece estar muito próxima. Da euforia à apreensão, o torcedor celeste assiste aflito a este embate.

No Botafogo, que concluiu a venda de sua SAF para John Textor e já opera sob nova direção, investidor e torcida vivem em lua de mel e os reforços para o início da nova “era gloriosa” já apareceram. Desde o dia em que Textor assumiu de vez o comando, o Botafogo já anunciou o zagueiro Philipe Sampaio, o lateral Renzo Saravia e o meio-campista Lucas Piazon, todos eles com passagens pelo futebol europeu, além de Patrick da Paula, joia do Palmeiras e bicampeão da Libertadores. É um novo perfil de atletas que chegam para moldar a nova identidade alvinegra.

Para o CEO do alvinegro, Jorge Braga, o perfil do novo investidor têm repercutido muito bem entre os botafoguenses, principalmente agora que o projeto já começa a ficar bastante evidente: “É interessantíssimo ver essa química. Sem dúvida o torcedor abraçou o Textor e com um olhar muito carinhoso, de muita esperança. Acho que passa muito pela personalidade dele de interagir, de desafiar, mostrar uma visão inovadora. O torcedor estava vivendo uma realidade dura há vários anos, muito apertada, e de repente surge uma possibilidade de fazer o Botafogo uma potência novamente da noite para dia. É contagiante”.

Porém, Braga ressalta que essa relação tem que ser uma “via de mão dupla”, cabendo também a qualquer investidor potencial de uma SAF entender que, mesmo sendo negócio, o futebol sempre envolverá emoção e paixão. “Se não houver química entre as partes, se não houver entendimento, nenhum negócio acontece. No Botafogo percebemos que essa sinergia aconteceu instantaneamente. O estilo de trabalho do Textor casou com os interesses do torcedor, então aqui (no Botafogo) isso não parece que vai ser um problema”, finaliza.

Bruno Maia, CEO da Feel The Match e executivo de inovação no esporte, avalia que o comportamento de cada investidor tem muito a ver com o momento que vive cada clube e o que eles pretendem passar de mensagem para o torcedor.  “O John Textor chega ao Botafogo sem nenhum vínculo com o torcedor, não havia história entre as partes. O Ronaldo não, ele já chega em uma posição de ídolo no clube. Isso o ajudou a tomar atitudes duras, como a saída do Fábio que, apesar das duras críticas, não inviabilizou a continuidade do projeto. Era importante o Ronaldo deixar bem claro a situação, ir lá embaixo para mostrar a verdadeira realidade. Essa foi e continua sendo uma mensagem necessária, é a realidade que ele quer mostrar ao torcedor”.

Já o novo dono do Fogão fez o caminho inverso e procurou atitudes para conquistar espaço com o seu novo “cliente”: Bruno conclui: “As ações do Textor são totalmente contrárias a essas (do Ronaldo). Elas precisavam levar em consideração que o John tem de se aproximar do botafoguense, ganhar a confiança, fazer um afago em uma torcida carente. Ele soube fazer isso muito bem, deu entrevistas dizendo que acompanha o sistema tático do treinador, colocou o Botafogo em uma placa de campo na Premier League (jogo entre Crystal Palace x Chelsea). Isso ajudou, nesse caso, a quebrar a visão de que ele chegaria como um investidor apenas para fazer dinheiro, criou uma outra expectativa e afastou as dúvidas da torcida”.

Caso mais recente dessas ações feitas para conquistar o torcedor, ao concluir o processo de aquisição da SAF botafoguense, Textor renomeou a sua biografia no twitter para CO-owner (with the fans) of Botafogo FR. Em português: coproprietário (juntamente com os torcedores) do Botafogo FR. A frase de efeito foi atribuída a um botafoguense, que também a usa na rede social, e foi “apropriada” pelo novo dono do Botafogo afim de fortalecer essa já evidente sinergia.

Outra negociação que é cercada de euforia e otimismo por parte do torcedor é a entre o Vasco da Gama e 777 Partners. Essa relação viveu seu clímax neste último final de semana, quando os co-fundadores Josh Wander, Juan Arciniegas e Steve Pasko, vieram ao Brasil para conhecer a estrutura vascaína e estreitar os laços com o conselho deliberativo do clube e também com a torcida. Recebidos e “tietados”como verdadeiros craques em campo, os investidores norte-americanos deixaram a torcida vascaína com o gostinho de que um futuro brilhante está por chegar.

O discurso e o trabalho da 777 nesse período de convergência entre investidores, conselheiros e torcedores, segue uma orientação muito parecida com a do conterrâneo e vizinho de clube, John Textor. Arciniegas, um dos prováveis futuros coproprietários do Vasco SAF, ressalta em seu discurso essa sinergia que começa a aflorar entre as partes: “É incrível (a empolgação do torcedor), é de outro mundo. Nunca vi algo assim. Estamos muito agradecidos pela maneira como fomos recebidos”.

Vivendo em um “mar de rosas” ou em águas turbulentas, essa relação entre torcedores e investidores donos de clubes talvez seja o mais claro e evidente sintoma de que o futebol brasileiro vive dias de radicais transformações e adaptações para um futuro em que cada vez mais a bola será pauta em mesas de negócios e invesimentos.

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